Prólogo: Dante Parte 2

Posted by Ricardo Junqueira | Posted in | Posted on 16:01

08 de Junho de 1984

O homem saiu daquele beco escuro e entrou em seu Fusca preto, ele imediatamente deu a partida, aproveitando a pequena quantidade de carros para andar um pouco mais rápido que o de costume. A chuva havia apertado um pouco, mas aquilo realmente não era um problema já que havia décadas desde a última vez que ele adoeceu, tendo que ficar de cama por alguns dias enquanto sua esposa e filha cuidavam dele. As imagens das duas freqüentemente surgiam em sua mente, sua vida era perfeita até o dia em que tudo aconteceu, mas finalmente o dia de sua vingança estava chegando.

Tudo aconteceu há cerca de oitenta anos atrás, Dante era um homem honesto que vivia com sua esposa e filha em uma casa de classe média no centro de São Paulo. Era bem visto por todos os seus vizinhos e amigos e alguns até mesmo achavam que ele deveria tentar um cargo na política local. Já era Natal e por isso sua esposa preparou um jantar para os três em sua casa, eles divertiram-se bastante naquela noite e logo foram dormir, pois sua filha queria acordar cedo para receber os presentes que o tal Papai Noel havia deixado sob a árvore de Natal.

Durante a noite Dante deixou seu quarto sorrateiramente para colocar os presentes sob a árvore, já havia passado de meia-noite e o silêncio reinava em sua casa. Foi quando ele ouviu alguém mexendo na maçaneta da porta de entrada, provavelmente seria um ladrão ou algum outro malandro que resolveu tentar a sorte ali. Prevendo que naquele ritmo a porta provavelmente seria arrombada em pouco tempo, o homem decidiu ir até a cozinha e pegar uma faca, voltando para a sala e aguardando que a porta fosse aberta. Dante se surpreendeu ao encontrar um homem jovem do outro lado, devia ter uns 20 anos e suas roupas eram impecáveis. Possivelmente aquele rapaz estava bêbado e confundiu sua casa, mas antes que pudesse ter qualquer reação o rapaz avançou sobre ele, desferindo um soco em seu abdômen com uma força descomunal. Dante ficou caído no pequeno corredor da entrada enquanto o rapaz avançava para dentro de sua casa.

- Você não deveria tentar a vida política sem nossa autorização, sabia? – disse o jovem enquanto vestia um par de luvas que tirou de dentro do terno – Eu vou lá em cima buscar sua esposa e sua filha, não tente fugir, pois será pior para vocês três...

O homem subiu as escadarias para o segundo andar enquanto Dante tentava se arrastar para sala, o impacto daquele golpe provavelmente havia quebrado uma de suas costelas. Ele mal podia acreditar no que estava acontecendo, sua vida era perfeita, possuía uma família feliz e não tinham problemas com dinheiro. E agora em uma noite tudo poderia ser perdido. Alguns minutos depois o homem retornou trazendo a filha e a esposa de Dante, sua filha estava chorando e parte do rosto da mulher estava um afundado como se tivesse recebido um soco. O rapaz colocou os três lado a lado na sala e começou a falar:

-Acha mesmo que qualquer um pode vir em nosso território e tentar ganhar poder? Vocês humanos são realmente patéticos em acreditar que estão no topo do mundo, infelizmente para você isso acaba hoje e que sirva de exemplo para os próximos que tentarem. – O rapaz deu dois passos em direção a garotinha quando foi atacado por Dante, ver sua filha ameaçada fez com que ele reunisse suas forças para tentar impedir aquilo.

Com a faca que carregava ele conseguiu acertar um golpe certeiro no coração do homem, acreditava que tudo estaria terminado após aquilo e que no máximo teria que dar explicações para a polícia no dia seguinte, mas ao ver a reação do rapaz Dante entendeu que talvez estivesse presenciando algo ainda pior do que havia previsto. Com sua mão direita ele segurou o punho de Dante que ainda encravava a faca em seu peito e o puxou, havia utilizado tanta força ali que foi o suficiente para quebrar sua mão. Antes de soltar ele ainda deu uma joelhada no homem, que caiu no chão sentindo fortes dores. O rapaz voltou a caminhar em direção a garotinha, que a esta altura já estava paralisada de medo, ele gritava como se tivesse perdido totalmente o controle.

- Maldito! Eu vim aqui apenas para matar vocês, mas agora darei um destino ainda pior para você e sua família! – Ao terminar de falar seus caninos se alongaram alguns centímetros e ele avançou em direção a filha de Dante, mordendo seu pescoço enquanto a mãe dela gritava horrorizada. Mas antes que a mulher tivesse a chance de tentar escapar ele a segurou pelo ombro e também a mordeu, deixando as duas caídas imersas em uma crise convulsiva enquanto ele caminhava até Dante, dizendo – Viu? Isto é tudo sua culpa. Vocês três iriam apenas para o Inferno, mas quem sabe agora elas não tenham um destino ainda pior!? – O rapaz ergueu Dante pelo pescoço e também o mordeu, deixando ele caído no chão enquanto fugia pela porta de entrada.

Foi ali que aquela caçada de décadas havia começado, Dante foi o único dos três a sobreviver a Transição, por meses ele se culpou por tudo que aconteceu, mas quando finalmente entendeu a verdadeira essência de sua nova condição ele decidiu se vingar. Ainda faltavam algumas horas para o nascer do Sol, mas já havia progredido bastante naquela noite. Dante dirigia imerso em suas memórias pelas ruas da cidade que viu crescer, permaneceu daquela maneira até perceber que estava quase avançando um sinal vermelho e atropelando um grupo de jovens. Conseguiu parar a tempo, mas ainda teve que ouvir algumas ofensas sendo gritadas em sua direção.

-Cuidado aí, ô coroa! – disse um dos jovens que atravessava a rua.

“Merda...” – Pensou Dante se reprimindo por quase ter sofrido um grave acidente naquele momento. No momento em que o sinal abriu ele dirigiu atentamente até sua casa numa região mais afastada da cidade, talvez aquele fosse o último dia que passaria ali e por isso deveria se preparar para os acontecimentos decisivos da noite que viria.

Comments (0)

Postar um comentário